O final do ano chegou e você com certeza conhece a música mais famosa dessa época: a vinheta de final de ano da Globo. 

“Hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou…”

Então vamos falar sobre a música “Um Novo Tempo”? E sim, esse é o nome oficial dela.

Essa música está ligada a diversas memórias dos brasileiros, né? Coisas como beber champanhe barata com os tios, todo mundo de branco com esperança de que o ano seguinte vai ser melhor, aquela sensação de “novidade”, tudo isso enquanto rola uma discussão se essa música é irritante ou não.

Pois é, tem muita gente que não suporta esse som. Mas, odiando ou não, é necessário admitir que ela já faz parte da nossa cultura. Você sabe a história por trás?

No comecinho dos anos 1970 (sim, ela é bem antiga) a Tv Globo, que tinha apenas 5 anos de existência, encomendou um jingle para ninguém menos que os mega talentosos Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle e Nelson Motta

(composição de Nelson Motta)

O grande desafio é que a música deveria funcionar para ser cantada em coro, onde os atores e artistas do canal iriam gravar cenas dublando a música.

Segundo Marcos Valle, a ideia partiu do Boni (dono da emissora) e de Nelson Motta, eles queriam que fosse uma música positiva, esperançosa, que fosse sofisticada e ao mesmo tempo popular. Apesar desse briefing complicadíssimo, o trio de compositores já estavam trabalhando juntos há um ano, então foi bem fácil criar a letra e fazer a melodia em um piano.

Agora que a melodia e letra estavam prontas, a canção deveria ir para a “produção”, ou seja, juntar músicos e realmente colocar a ideia em prática. Nessa parte escolheram o maestro Hugo Bellard para escrever o arranjo para uma orquestra (sim, chamaram uma orquestra para gravar o jingle!).

Hugo já tinha bastante experiência com jingles e estava acostumado a trabalhar no Estúdio Zurana e Agência Aquarius, ambas de Marcos e Paulo Sérgio (indicação é tudo, não é?).

No arranjo, a música What The World Needs is Love de Burt Bacharach foi escolhida como inspiração para as cordas, piano e coro. Para os metais ele estudou o estilo de Billy Vaughn. E que inspirações, hein?

Lembrando que “Arranjo” na música nada mais é do que pegar uma melodia (conjunto de notas musicais organizadas em um ritmo) e preparar para que um grupo de músicos com instrumentos diferentes consiga executar essa melodia se forma harmônica, ou seja, pensar em tudo que vai fazer parte da música, como as linhas de baixo, metais, vozes (ainda mais nesse caso, que seria cantado como coral), etc. Ou seja, é um trabalho importantíssimo que exige muita experiência do profissional.

O estúdio que escolheram para gravar foi o histórico Som Livre no Rio de Janeiro. Segundo o Discogs, esse estúdio lendário já foi utilizado por outros grandes artistas como Tim Maia, Rita Lee, Tom Jobim, Jorge Ben, Djavan, entre outros. 

Com todos esses recursos era impossível o jingle ficar ruim! A vinheta foi ao ar pela primeira vez em 1971 (em 2022 ela completa 51 anos) e “Um Novo Tempo” fez tanto sucesso que foi aproveitada em todos os anos seguintes, virando essa grande tradição da emissora. Detalhe: o plano original do Boni era utilizar apenas uma vez.

Aqui está a primeira versão:

Meio surrealista, né?

Nesse meio século de história tiveram algumas edições que chamaram mais atenção, como por exemplo:

1991 – Tema “Tente, invente, faça um 92 diferente”

Nela a equipe da Globo resolveu mostrar suas outras habilidades, como Fátima Bernardes que mandou um sapateado e Adriana Esteves, nossa vilã favorita, que se mostrou uma grande bailarina.

1998 – tema “Mães e filhos”

Dessa vez as novas mães do elenco colocaram os filhos na gravação, a ideia era fazer algo mais fofinho mesmo.

2011 – tema “E se o elenco da Globo tivesse outra profissão?”

1984 – tema “???”

Apesar dessa ser mais antiga, resolvi deixar para depois porque é uma das mais interessantes. Colocaram uma banda de pop rock feminina chamada Sempre Livre para cantar a música!

O visual lembra muito as produções do designer Hans Donner, um dos profissionais mais renomados da área de design no Brasil. Acho que foi inspirado nele e pedi para o Artur, nosso designer assistir e dizer o que achou, se liga na resposta dele:

“Lembro que quando estava me formando em Design Gráfico o Hans Donner era um tema muito comum na sala de aula. Acho que ele tinha mudado a identidade visual da Globo e estava apostando em gradiente, 3D, ou alguma coisa do tipo hahaha O fato é que esse visual do vídeo tem muito a cara dele, ele apostava muito em formas geométricas surrealistas e gostava de abusar do CGI (Imagens geradas por computador), o engraçado é que hoje em dia existe um grande apreço por esse visual datado, bem anos 80. Um bom exemplo é a abertura que ele fez para o Fantástico em 1983, um ano antes desse vídeo! A galera gringa pira no estilo dele.

Então muito provavelmente ele deve ter feito a direção de arte da vinheta de fim de ano. É bem anos 80, gostei demais.”

Outro ponto interessante é que nesse ano a Globo soltou outra vinheta AINDA MAIS ANOS 80:

Por fim, outra edição que vale a pena comentar é a de 2020, ano da pandemia. Pela primeira vez a equipe não pode participar presencialmente, então fizeram como animação:

É isso, galera! Agora vocês têm várias curiosidades para deixar seus parentes e amigos malucos durante a virada. Já eu vou ficar com essa música na cabeça até 2024 🤡

Se você estiver curioso ou quiser se torturar um pouco, achei esse compiladão aqui:

Tem bastante coisa engraçada, outras que envelheceram bem mal. Mas a maioria vai fazer você pensar “Onde eles estavam com a cabeça quando decidiram gravar isso?”

Um feliz 2023 para vocês de toda a equipe da Artcetera! Um beijão 😘

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