Eu sou muito fã de música Punk, gosto muito da cena americana dos anos 80, afinal tinham bandas como Fear, Black Flag, Bad Religion, Big Boys, Descendents, entre muitas outras. 

Mas sei que não era um movimento perfeito, inclusive lembro de ter assistido uma entrevista com Exene Cervenka, vocalista da banda X, onde ela revelou que ficava muito incomodada ao cantar músicas sobre violência doméstica, já que alguns homens na plateia cuspiam na banda.

Não é muito difícil encontrar evidências de sexismo na cena punk nos anos 80, afinal era uma cena muito confusa e muito centrada em homens brancos, além disso o punk não tinha a base política que é tão presente no rolê nos dias atuais. Até tinha uma grande discussão na época, Johnny Ramone chegou a escrever uma carta para Jello Biafra pedindo que o Dead Kennedys não misturasse punk com política. 

Sabemos de muitas músicas e bandas que envelheceram muito mal. E isso é ótimo! Significa que amadurecemos de forma coletiva e identificamos que algumas ações/falas já não fazem mais sentido. Essa consciência nasce graças a movimentos que apontam esses problemas e lutam para serem ouvidos.

O tema de hoje é sobre um grupo de mulheres que colocou o dedo na ferida da própria cena punk e escancarou algo que muitos simplesmente ignoravam e tentavam silenciar.

Antes do Riot Grrrl

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Antes de tudo é muito importante dar um contexto da cena punk americana no final dos anos 80 e começo dos anos 90. Nessa época o Hardcore Punk estava em decadência, os shows estavam muito perigosos, existiam muitas gangues e as casas de show estavam restringindo cada vez mais o público.

Como resposta alguns coletivos organizavam shows “All Ages” (para todas as idades), assim conseguiam atrair jovens e revitalizar a cena punk e não era incomum que fossem organizados em universidades.

Em 1991, na pequena cidade de Olympia no sul em Seattle, onde tinha uma comunidade progressista de esquerda em volta do Colégio Estadual Evergreen (lembrando que não é o mesmo que um “colégio” aqui no Brasil, nesse caso é uma espécie de instituição de ensino que vem depois do ensino médio e antes do curso universitário), nasceu um movimento de mulheres feministas que estavam cansadas do sexismo na cena punk. 

O interessante é que esse movimento não começa através da música, já que elas não se sentiam respeitadas como artistas, mas sim através dos Zines, que eram muito mais comuns no movimento punk inglês. Esse tipo de publicação era feito de forma independente então era muito acessível, até hoje eles são muito comuns. Basicamente são publicações feitas por uma ou mais pessoas utilizando recursos como máquina de escrever, colagem ou faz tudo à mão mesmo. Quando pronto a pessoa (ou grupo) vai numa máquina de xerox e imprime várias cópias em preto e branco e sai distribuindo por aí. É uma forma muito mais direta e prática de se expressar.

Riot Grrrl

Tobi Vail foi uma das precursoras com o seu zine Jigsaw, ela usou suas publicações pra expressar suas frustrações em relação a forma como se sentia dentro do punk.Uma passagem que me chamou muito atenção foi “Me sinto totalmente de fora de tudo que é importante para mim. E eu sei que parte disso é porque o Punk Rock é para e por garotos”. 

Mais tarde Tobi se juntou com Kathleen Hanna e começaram um novo zine juntas chamado Bikini Kill, Já viu onde isso vai dar, né?

Riot Grrrl

Depois as duas se aproximaram de Allison Wolfe e Molly Neuman do zine Girl Germs, fortalecendo ainda mais a comunidade local de publicações independentes.

Riot Grrrl

Vale lembrar que essas publicações abordavam diferentes tópicos como machismo, homofobia e racismo, problemas que infelizmente eram comuns no underground da música punk.

Segunda uma matéria de Tamara Jiji para a L’Officiel, os zines consistiam de experiências em primeira mão com violência doméstica, abuso, desordens alimentares, dicriminação, homofobia, racismo e muito mais. As publicações eram plataformas onde essas mulheres poderiam compartilhar suas ideias, pensamentos e experiências umas com as outras. O fato de ser algo DIY (faça você mesmo), facilitou com que esse material circulasse com uma maior facilidade, ainda mais numa época onde não existiam redes sociais.

Ainda segundo a fotógrafa especializada no movimento punk e ativista Sharon Cheslow, com essas publicações as mulheres em conjunto perceberam o quanto a comunidade punk estava se tornando parecida com a sociedade comum. Então para que pudessem mudar as coisas, seria necessário apontar e combater esses problemas internos. 

Saindo do zine e indo para a música

Nos anos 90 em Seattle estava nascendo o Grunge, uma cena nova dentro do rock que se inspirava muito no Punk, apesar de ser mais próxima do mainstream. As principais bandas Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains eram masculinas. Já no punk, como disse lá em cima, ainda era muito perigoso e era um público composto em sua maioria por homens. Então as bandas femininas se sentiam deixadas de lado.  

Então em outubro de 1990 Tobi e Kathleen decidiram que a melhor forma de serem ouvidas seria através da música, principal mídia dentro do movimento punk. Então junto com Billy Karren e Kathy Wilcox transformam o Bikini Kill numa banda, que até hoje é uma das principais bandas de rock já formadas.

Inclusive, Rebel Girl acabou se tornando um dos hinos do movimento!

Allison e Molly do Girl Germs também entraram na onda e junto com Erin Smith montam a banda Bratmobile. Nas músicas elas satirizavam o movimento punk, fazendo críticas ácidas sobre como os homens esperavam que elas se comportassem.

Não preciso nem dizer que parte do público masculino não gostou nem um pouco dessas músicas. A vocalista do Bikini Kill chegou a sofrer agressões em alguns shows.

Em 1991, Calvin Johnson, dono da gravadora independente K Records, que era focada no underground, organizou o festival International Pop Underground na cidade de Olympia. A organização desse festival convidou quase 20 bandas de mulheres ou com vocalistas femininas para o evento de abertura, que ficou conhecido como “Love Rock Revolution Girl-Style Now” (algo como “Ame Agora o Rock Revolucionário no Estilo Feminino”), que mais tarde foi abreviado para “Girl Night” (Noite das Garotas). O próprio nome do evento vem da demo do Bikini Kill!

Esse espaço foi fundamental para a consolidação do Riot Grrrl, já que foi um dos primeiros festivais onde várias bandas feministas puderam se juntar e se apresentar para um público majoritariamente feminino. Bandas como Bikini Kill, Bratmobile e Heavens to Betsy se apresentam. Showzão, hein?

Nasce o Riot Grrrl

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Os zines ainda eram muito importantes para o movimento feminista dentro do Punk. Na segunda edição do Bikini Kill, a banda escreveu um manifesto e deu um nome ao movimento: Riot Grrrl. O termo tem várias origens, uma delas vem de quando Jen Smithl, que temporariamente tocou guitarra na Bratmobile, escreveu “girl riot” (algo como tumulto das meninas) em uma carta para Allison Wolfe sobre os protestos raciais de Mount Pleasant – quando uma policial atirou em um homem latino durante uma comemoração tradicional, que gerou uma grande manifestação anti-polícia. Ela dizia que as mulheres deveriam se manifestar da mesma forma. A parte do “grrrl” vem delas se sentirem mais respeitadas quando crianças do que quando adultas.

A parte principal do manifesto dizia “Nós garotas  desejamos álbuns, livros e fanzines que falem com A GENTE, que NOS faça sentir incluídas e que entenda a nossa atitude. Estamos bravas com uma sociedade que fala Garota = Burra, Garota = Ruim e Garota = Fraca.

Outra frase bem famosa do movimento (e uma das mais importantes para mim), é o “Girls to the front!” (Garotas para frente!) gritado pela Kathleen durante os shows do Bikini Kill. Eu mesma sempre frequentei shows punk e de hardcore aqui em São Paulo, e sempre me senti incomodada com a frente dos palcos sempre ficar lotada quase que exclusivamente por homens. Então tinha algo muito empoderador quando ela gritava isso, deixava claro com quem que ela queria realmente se comunicar, a música dela não era só para marmanjo ficar curtindo, era para conversar com as mulheres da cena. Aproveitando, Vai se f*der quem fica fazendo crowd kill nos shows 🙂

Estética do Riot Grrrl

O movimento nasceu do Punk, então boa parte da estética veio junto, como as colagens, o som agressivo e shows pequenos. Mas algo que chama muito a atenção é que as bandas não tinham medo de adotar o estereótipo feminino, então se apresentavam com vestidos e maquiagem. Isso era fazer com que outras mulheres sentissem a vontade de fazer parte do movimento, elas não queriam se masculinizar. O Riot Grrrl era publicamente anti-capitalista, então queriam alcançar o maior número de mulheres com o menor número de barreiras possível pra conseguir transmitir informações e conhecimento de forma livre.

As meninas do Riot Grrrl também não queriam fama, sucesso ou dinheiro, elas queriam mudanças reais na sociedade. E graças ao seu movimento conseguiram gerar mudanças importantíssimas, fazendo com que outras minorias também pudessem ter voz. Elas conseguiram fazer o feminismo superar as fronteiras da academia, fazendo com que a luta se tornasse popular não só no punk como na sociedade americana. Fizeram com que a nova geração punk criasse um ambiente muito mais seguro, progressista e de esquerda.

Outras bandas Riot Grrrl

Essas bandas de Olympia e Washington não foram as únicas e elas inspiraram muitas outras! Uma das minhas favoritas foi Huggy Bear que até chegou a se apresentar um um programa infanto-juvenil chamado The World

E quem aqui lembra do Rato de Porão tocando no Milkshake?

E como esquecer do L7? Lembrando que a banda já existia antes do Riot Grrrl e já era bastante politizada, mas quando viram o movimento que estava acontecendo, elas entraram de cabeça.

Se você gosta de Bikini Kill precisa ouvir Le Tigre, banda da vocalista Kathleen Hanna 

Outras novas e antigas que valem MUITO a pena ouvir:

Riot Grrrl no Brasil

O movimento Riot Grrrl não ficou só nos Estados Unidos, ele chegou aqui no Brasil e conseguiu influenciar várias bandas como:

Cosmogonia – a mãe do Riot Grrrl brasileiro, essa banda de 1993 continua arrasando até hoje nos palcos. Ela foi fundada em Osasco – SP por duas professoras que sentiram falta de uma banda feminista na cena punk nacional. A história da banda é incrível e vale dar uma conferida nesta entrevista aqui. Sou suspeita para falar, mas essa é a minha favorita da lista! Lembro que descobri essa banda em um CD que tinha um compilado de várias bandas punks de São Paulo.

Dominatrix – Formada em 1995, é considerada uma das precursoras do Riot Grrrl. Elas estão na ativa até hoje e fazem bastante sucesso na cena underground. Vale muito a pena conhecer o trabalho delas!

The Mönic – Essa banda de 2017 se inspira demais no Riot Grrrl e no Grunge dos anos 90. Elas fazem bastante sucesso e já é considerada uma das principais bandas brasileiras de rock.

Miami Tiger – Com Carox no vocal, uma artista já conhecida no underground paulista, esse grupo formado em 2015 arrasa demais e aposta bastante nas letras políticas.

Deb And The Mentals – Outra banda formada recentemente, eles pegam bastante inspiração nas bandas dos anos 90. Todos os membros da banda são mega talentosos, então não tem desculpa para não dar uma escutada 😉

Influência na música

O Riot Grrrl não influenciou apenas bandas no underground, peguei aqui 3 outras bandas e artistas mainstream que já falaram que se inspiraram no Riot Grrrl:

Sleater-Kinney

Fiona Apple

Alanis Morissette

E, para conhecer mais sobre a influência do movimento Riot Grrrl, se liga nesses posts da Artcetera:

  • 15 livros de Grunge, incluindo Heavy Angel: Mia Zapata – Exploring the Living Memory of a Seattle Legend
  • 20 filmes de Punk, em especial The Punk Singer, que fala da líder do movimento Riot Grrrl, Kathleen Hanna, do Bikini Kill
  • 50 livros de Punk, com Guia Pussy Riot para o Ativismo, Girls to the Front: The True Story of the Riot Grrrl Revolution e mais

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