Muitas risadas na entrevista com Matheus Krempel - The Bombers. Fique por dentro dos projetos e histórias!

Hoje é dia de entrevista! Falamos com Matheus Krempel, um dos reis da cena independente de São Paulo e Santos. Na ativa desde o começo dos anos 90, hoje em dia ele se se divide entre o The Bombers (perfeito pra quem gosta de Rancid), Reverendo Frankenstein (ideal pra quem gosta de psychobilly), 2 Kims (se você já cantarolou “Where is My Mind” do Pixies, vai gostar), seu selo Craic Dealer Records e o estúdio Porto Produções Musicais.

Conversamos sobre sua carreira, o estúdio, loucuras, histórias e os próximos lançamentos da banda. Foi muito legal bater esse papo com ele, rolaram boas risadas e ele também falou um pouco sobre seus gostos pessoais e como isso influencia seu trabalho. 

Essa entrevista foi feita no dia 30 de junho de 2022, de maneira online, conduzida por essa que vos escreve (Ornella) e pelo Artur Torres.

 

 

Bora lá:

 

Artur: E aí, Matheus! Beleza? Cara, diz pra gente quais suas bandas atualmente e os projetos que você está participando.

 

Matheus: Tudo na paz e por aí? Então, atualmente é o Bombers, o Reverendo Frankenstein que está voltando e eu vou cantar com eles de novo; e tem uma banda chamada 2 Kims, que é uma banda na linha do Pixies, com vocal feminino e tá sendo legal pra caramba, uma experiência diferente pois nessa banda eu só toco.

 

 

No Reverendo eu só canto, na 2 Kims eu só toco e no Bombers eu toco, canto e faço stand up comedy haha. Aí tenho o estúdio, chamado Porto e também tenho meu selo, que atualmente lança trabalhos do Bombers e da banda do meu “sócio”, que é o Jarles. A banda dele é a Dope Times e tem o Sick Dogs in Trouble, que é a banda do baixista do Bombers.

Então, a gente tem esse selo para justificar esses lançamentos, o nome é Craic Dealer Records hahaha.

 

Ornella: É um bom nome! Alô, Polícia Federal! hahaha…

 

Matheus: haha, se escreve Craic, é uma gíria Irlandesa, que é tipo, “What’s the craic?”. Que é “qual que é o rolê, qual que é a boa?”, aí a gente pensou nisso, o “craic dealer”. Uma besterinha, né? Na real a gente tem que se virar. Aparentemente, o pessoal que a gente trabalhava tá meio parado e a gente precisa seguir produzindo. Aí tivemos essa ideia, bora montar um selo!

 

Ornella: Ah, entendi! Vocês lançaram com outro selo e aí fizeram o de vocês?

 

Matheus: É, a gente estava lançando pela Hearts Bleed Blue, só que ali a gente já percebeu que eles tinham interesse em lançar os álbuns completos, e a gente fez muito EP, fez split…e às vezes os caras ficavam meio “meu, é muita informação”. Aí queríamos lançar esses outros materiais pro universo, né? haha aí surgiu o selo. 

 

Ornella: E o selo lançou outras bandas que não a de vocês?

 

Matheus: Já sim! No início a ideia era realmente lançar outras bandas, né? Mas só de forma digital porque a gente não tinha como fazer investimento para lançar nada físico que não fosse o nosso. E assim, eu via muita banda boa indo ensaiar lá no estúdio ou produzindo e criando, enfim, fazendo acontecer no cenário independente. E tinham umas bandas que iam lançar sem selo nenhum, e às vezes falta um selo. O selo é um padrão de qualidade, é dizer “Alguém acredita nesse trabalho”.

Então eu falava: “Pô, é isso que eu posso fazer por vocês: eu acredito no seu trabalho, não posso te oferecer porr* nenhuma, mas eu sei fazer um texto ok, tenho um Mailing list mais ou menos respeitado. Eu lanço seu trabalho, tenho um esqueminha legal, você não vai ter custo nenhum. Posso fazer assessoria e ajudar no planejamento do lançamento e do pós, mas tudo isso baseado na experiência que eu tive na vida inteira, principalmente na HBB (Hearts Bleed Blue)”.

Eu aprendi muito na HBB, como trabalhar de uma forma mais profissional, mais responsável, que valoriza mais o trabalho e não aquela coisa “tô fazendo um favor pra você”. 

Enfim, lançamos outras bandas sim, lançamos uma banda que se chama Sandinistas, outra que o nome é Mars Addict, outra que é a Situation 9, o Samy e outra chamada Quintal do Caribe, que é um cantor da Costa Rica acho, puts, não lembro o país dele, ali na América Central. Foi um trabalho que o Trivela gravou, que é uma música caribenha, que bate na trave do reggae.

E aí também começamos a lançar os nossos próprios trabalhos, atualmente estamos pra lançar o novo do Bombers, o Dope Times está compondo pro segundo disco deles e quem estamos lançando mais, em termos de quantidade, é o Sick Dogs in Trouble, eles tem lançado bastante coisa pras plataformas de streaming.

 

 

Ornella: Essa parada de material físico X digital é uma questão interessante hoje em dia, né? Dependendo da banda e do público, não vale a pena fazer o material físico. Por exemplo, fazer 100 cd’s é muito caro e fazer 500 cd’s é mais barato, porém na maioria das vezes, infelizmente, acaba não vendendo tudo isso. Fica um material parado ali. Ao mesmo tempo que ter o material físico é muito melhor, pessoalmente eu prefiro ter em mãos. Acho que tem um cuidado que o digital não entrega, o que você acha?

 

Matheus: É isso mesmo, o material físico é a obra completa. Eu me rendo de certa maneira, os EPs estão aí, os singles estão aí, essa mentalidade meio “descartável” da música, né? 

Você tem que liberar material toda hora para alimentar o algoritmo, se não você fica com uns números ridículos igual estamos agora, mas isso é outra história, porque nós fomos meio rebeldes com as plataformas de streaming e pagamos um preço bem caro por isso. Nossos números despencaram porque ficamos um ano inteiro trabalhando só com o bandcamp. 

Mas então, acho que pra fazer um disco eu não consigo me curvar, não consigo fazer só digital. O disco tem que ter ficha técnica, pra saber quem trabalhou, quem produziu, que compôs, quem tocou qual instrumento nas músicas, pra ter lista de agradecimento sim, citando um monte de banda. 

Pra quem tem paciência de ler e quiser descobrir um monte de artista que é associado de alguma forma com a gente, enfim, pra fazer um agrado pra todo mundo que tá acompanhando e apoiando essa loucura. Cara, tem a arte, tem todo o conceito. O disco físico ainda é importante pra quem gosta de arte e eu não abro mão disso jamais.

Matheus Krempel tocando no The Bombers
Matheus Krempel tocando no The Bombers. Fonte: Facebook.

Ornella: Quem está dentro do underground, independente do estilo, sabe que ainda há uma valorização desse tipo de coisa. Você deve perceber que o maior número de vendas dos materiais acontece nos shows, por exemplo. Se a pessoa gosta de ir em shows, acaba comprando mesmo que tenha conhecido a banda no dia, porque curtiu o que viu ali. A compra de material acaba sendo uma cultura do próprio underground.

 

Matheus: É isso, quando saímos para tocar, é o que salva muitas vezes, porque aí vende o cd, a camiseta, o adesivo, enfim, faz o combo ali e vende fácil. É muito legal quando chegamos em outra cidade com os CDs e as pessoas pedem autógrafos no cd, tem muita coisa legal relacionado ao material físico. 

Assim, talvez eu abrisse mão de lançar cópias, tipo, 300 cópias, 500 cópias, 1000 cópias. Eu abriria mão de lançar tanta coisa desde que tivesse um museu pros discos hahaha aí eu faria um vinil, só um com a porr* toda! Quer ver? Vai lá, aí tem o link e você acessa o disco hahaha. 

Mas tem que ser físico, tem que ter a arte da capa, a arte do encarte, o que você quer dizer ali não só com os acordes e letras, mas também com desenhos, pessoas, fotos. É um sentimento, não tem como ignorar isso, eu não consigo.

 

Ornella: Sim, total. E como você está enxergando esse mundo pós pandemia que, querendo ou não, a maneira que se ouve música está cada vez mais diferente, tem o Tiktok, tem a chance da sua música estourar nessas plataformas e isso não quer dizer que é bom ou ruim. É só um casino, sua música pode ser odiada assim como pode ser amada. Como fica pra você esse momento pós pandemia, “pós Tiktok”, pós apocalíptico haha?

 

Matheus: Olha, eu fritei muito a minha cabeça tentando entender isso tudo. Cheguei a conclusão que eu não tô nem aí, simplesmente não posso me preocupar com coisas que eu não posso controlar. Não vou virar tiktoker porque agora “tem que ser tiktoker”, eu não vou ser um digital influencer, isso não é pra mim. 

O que eu decidi foi fazer as coisas da maneira que eu sei fazer. Então, vou fazer minha música, vou fazer minha arte e vou lutar por ela. Vou fazer como acho que tem que ser e fazer o que tem que ser feito que é: marcar show, levar minha música pro máximo de pessoas que eu puder, alcançar o máximo de pessoas que conseguir e seguir em frente.

Na verdade, o meu irmão vai fazer essa parte de estratégia digital, para trabalhar a banda de acordo com as plataformas de streaming. Na pandemia tivemos essa ideia de lançar um EP por mês no bandcamp, porque lá eles tem o “bandcamp friday”, que é toda primeira sexta-feira do mês, o bandcamp reverte pros artistas tudo que é vendido em música, 100% do valor vai pros artistas. 

Isso gerou no mundo todo, pelo menos no cenário independente, uma sensação. Aqui no Brasil foi menos, mas lá fora tava bombando, todos os artistas que eu curto estavam fazendo isso e ganhando apoio do público, eu inclusive também contribui com vários artistas porque sabia que estava fortalecendo um cenário independente. 

Isso me deu um estalo, “pô, vou fazer isso aqui também”. Muita gente veio me falar que não estava acompanhando o ritmo, que estávamos lançando muita coisa. Cara, acompanha o quanto você quiser, tipo assim, o bandcamp friday é uma troca justa. Eu tô entregando um EP pra você com três, quatro faixas por mês, inéditas e tudo que você tem que fazer é ir lá e contribuir pra me ajudar a manter o que estamos fazendo. 

“Ah, mas não vai estar no spotify?”, aí eu falei “algumas podem estar, daqui a um ano, quando lançarmos o disco novo, aí sim vai estar no spotify! Mas não, a ideia é você vir aqui consumir a gente aqui”, ou comprar ela, a ideia do bandcamp tem a ver com a compra. 

Enfim, nós tivemos um bom engajamento, mas fora do Brasil, de pessoas lá de fora. Foi legal pra caramba, recebemos em dólar, uma mixaria pra eles, tem essa, né? hahaha 

Mas isso deu um up pra gente, ajudou a custear algumas coisas, pois estamos trabalhando pro disco novo. Pô, uma capa do disco foi paga dessa forma, um videoclipe foi viabilizado, várias coisas.

Voltando à realidade, entrei em um acordo com meu irmão – que irá fazer a parte de divulgação – de lançar o disco novo, aliás, a master deve chegar esses dias aqui pra mim. Eu vou pegar, vou mandar fazer os cd’s, vou ter a previsão de recebimento desse material e aí fazer 15 dias antes o show de lançamento, depois disso é começar a marcar os shows. 

No dia do primeiro show, do lançamento físico, vai sair o primeiro single com o primeiro clipe. Aí vai sair no spotify, vídeo no youtube e a porr*  toda. Aí é show! A ideia é lançar uns dois, três clipes, singles. Se o disco sair em agosto, daí sai o primeiro single, no final de agosto sai o segundo e lá pra setembro sai o terceiro single. 

Aí sim, em outubro, ou algo do tipo, é uma programação por cima só, aí liberamos o disco em todas as plataformas. Até lá a ideia é fazer show, porque é a única chance da pessoa ouvir o nosso disco seria indo ao show e comprando cd. É uma forma de valorizar o físico e fazer o jogo que precisa ser feito.

CD do The Bombers na Livraria Cultura
CD do The Bombers na Livraria Cultura. Arquivo pessoal.

Ornella: É muito interessante algumas coisas que você está colocando aqui, não vou jamais dizer que “antigamente era melhor”, porque sabemos que não era.

 

Matheus: Concordo, muita gente talentosa não conseguia nem gravar nada.

 

Ornella: Enfim, é interessante porque você deixa claro que o jogo das plataformas de streaming acaba sendo injusto com os artistas e com o próprio público. As pessoas ficam reféns disso. O bandcamp que você citou ainda é pouco conhecido no Brasil, o Spotify domina, parece que se o artista não está lá, ele não existe. 

The Bombers
The Bombers. Foto de duhcphotos.

Matheus: Eu acho legal o Spotify, não vou negar, eu pago esse serviço. Sou assinante haha.

 

Ornella: Claro, tem seus prós e seus contras. Tem a questão de limitar a experiência do público e de pagar pouco pros artistas, mas o alcance é grande. Enfim, acho legal o que vocês estão fazendo, de não ignorar essa plataforma, fazendo uso do Spotify, porém não se limitando a ele, existe esse jogo pra trazer o público pra mais perto de vocês, isso humaniza o processo e o artista.

 

Matheus: Exato, até esqueci de falar sobre isso.

 

Ornella: Às vezes se torna uma coisa de “produza, produza, produza”. Você falou que estavam lançando quatro, cinco sons por mês. Bixo, isso é muita coisa! As pessoas acham que é fácil, mas é realmente maluquice.

 

Matheus: Pois é, e tinha gente que estava perdida e reclamando com tanto lançamento, mas ué, querem que eu faça o que? Que eu leve pra casa das pessoas pra elas ouvirem, igual ifood? hahaha Só entrar no bandcamp, pô. Não precisa nem comprar, só escuta! hahaha

 

Artur: Hahaha, tá, mas pra quem se perdeu, o disco novo tem músicas novas ou vão ser as gravações da pandemia revisitadas? 

 

Matheus: Na real, os EPs foram uma forma de nos mantermos produzindo. Pela distância e restrições que tivemos nesse período de pandemia, foi uma forma de entregarmos pelo menos algumas das músicas do disco. 

Fazendo esse esforço, conseguimos lançar uma versão demo, às vezes uma versão de violão e voz, quando conseguimos nos reunir gravamos versão de cover, enfim, até músicas que estávamos na dúvida se entrariam no disco ou não, sabe? Bora gravar. joga lá na rede e ver o que o pessoal acha. 

Mas assim, não são versões super finalizadas, elas têm uma master e uma mix ok, vai que vai. Assim, pro disco nós regravamos muitas coisas, salvamos músicas que achamos que não iriam entrar no disco, pintaram músicas durante o processo. Aí lá por Julho do ano passado eu puxei o freio de mão e disse “chega, se não o disco vai sair e não vai ter novidade nele”. 

 

Ornella: Sem novidade e com 28 músicas hahaha

 

Matheus: Sim hahaha aí é fod*. Mas do que você falou, sobre humanizar a relação, tem tudo a ver. Uma das coisas que eu pensei foi o quão próximo podemos estar de um artista, quando ele chega na sua caixa de e-mail e diz “ô, tô lançando aqui uma música, mês que vem tem mais, tô trabalhando aqui pra você”. Isso pra mim humaniza a relação porque ficamos mais próximos.

O disco que vai ser lançado, ele nasceu do feedback dessas pessoas. As pessoas praticamente acompanharam a produção desse disco ao vivo, todo mês estávamos lançando e o pessoal contribuindo, comentando o que gostou e o que não gostou. Isso aproxima a gente do público, vai na contramão dessa coisa “toma o single, compartilha aí, põe na playlist”, enfim, essa coisa de vender muito.

Com a gente foi diferente, era mais “Oi, você gosta da banda? Então, vou trabalhar pra você”. Pô, a gente vendeu o show, um show acústico. Eu e o Trivela – que é o guitarrista -, nós gravamos um acústico tocando umas oito músicas do Bombers em versão violão e viola caipira. 

Nós rearranjamos nossos punk rock e gravamos num pico muito fod*, em um esquema colaborativo pra caralh*, foi tudo colaborativo, som, filmagem e iluminação. Fizemos um baita produto, muito bonito de ver e ouvir.

 Aí decidimos arriscar, vender esse show online, tudo no esquema colaborativo, ou seja, pague o quanto acha que vale. Aí a pessoa recebia um link privado no youtube pra assistir, aqueles links que só a pessoa pode ver. Quer compartilhar o link? Beleza ué, sem problemas, mas a ideia é ser feito para a pessoa. E pô, vendeu pra caralh*! 

Levantou uma grana legal, conseguimos dar uma graninha pro pessoal que estava trabalhando lá de forma colaborativa, foi muito legal. Isso é humanizar, é chegar junto, isso tá sendo feito pra você, pro público.

Na pandemia nós fizemos uma live, tocando nosso primeiro disco de 1998. Fizemos essa live e emendamos com um mini documentário, que está lá parado. Como vamos lançar o disco novo em breve, deixamos isso meio parado pra sabe-se lá quando, um dia? Mas tá lá, pronto! Agora tem que saber administrar os lançamentos.

 

Ornella: Vocês tiveram ideias muito boas para contornar essa crise da pandemia, principalmente porque pegou todo mundo de surpresa.

 

Matheus: Sim, sem falar o quão terapêutico foi isso. Na hora que deu ruim lá em março de 2020, eu não fiquei me iludindo. Já sabia que não ia ser algo rapidinho, sabia que a gente ia se fod*r e nós já estávamos no meio da gravação do novo disco. 

 

Ornella: Caraca, no meio da gravação e, do nada, tudo fechado. Como foi isso?

 

Matheus: Sim, nós já tínhamos gravado todas as linhas de bateria!

 

Ornella: Mas e aí, com tanto tempo pra pensar, vocês acabaram tirando sons ou colocando outros no disco? Conta mais.

 

Matheus: Sim, teve música que nasceu à distância! A gente não se encontrou, não ensaiou, foi aquela coisa “fiz uma base, vou te mandar no celular”. Todo mundo criou e gravou sua parte em casa, por exemplo, a música Ardendo em Chamas, um dos últimos clipes que lançamos, foi feito desse jeito e é uma das nossas músicas favoritas.

Mas assim, quando deu o lockdown, já fiquei pensando que tínhamos que fazer alguma coisa, porque nosso trabalho iria por água abaixo, a banda ia parar e nós iríamos enlouquecer. Não dá, vamos fazer alguma coisa e vamos nos manter ativos de alguma forma. 

Eu tenho o estúdio, mas eu tive que aprender a gravar, porque eu não sabia fazer isso, eu não mexia com isso. Levei a placa pra casa e fui aprender a usar. O Trivela (guitarrista) já trabalha com isso, o Stefan (baterista) tem um estúdio em Santos e o Raul (baixista) e eu tivemos que aprender. O Raul aprendeu no Windows velho dele a gravar o baixo e eu aprendi a gravar também, então bora lá gravar!

Nessa eu aprendi a fazer edição de vídeo também, inclusive hoje eu trabalho com isso hahahaha!

 

Artur: Hahaha animal, arrumou até um trampo! Mas e o estúdio?

 

Matheus: Tá tranquilo, uma amiga minha está me ajudando, tá lá hoje porque tem ensaio das Mercenárias.

 

 

Ornella: Aí sim, baita banda. E o estúdio tá com quantos anos?

 

Matheus: Início de Junho fez 5 anos.

 

Ornella: Parabéns, bixo! Não é fácil manter algo assim, ainda mais depois desses últimos dois anos. Fala aí como que marca ensaio lá contigo e os contatos do estúdio!

 

Matheus: O nome é Porto Produções Musicais, Porto Estúdio, PPM Estúdio, enfim haha esses são os nomes que usamos. Fica ali na Cardeal Arcoverde nº 854, quase ao lado da Praça Benedito Calixto em São Paulo.

Wander Wildiner, Pitchu Ferraz, Georgia Branco e Trivela na Porto Produções Musicais.
Wander Wildiner, Pitchu Ferraz, Georgia Branco e Trivela na Porto Produções Musicais. Arquivo pessoal.

Artur: Maneiro! Agora conta aqui se é real que você teve aula com o Clemente do Inocentes.

 

Matheus: Tive sim, na real a minha banda estava começando e o Clemente tinha um projeto chamado Oficina de Bandas, que era tipo um curso pra bandas iniciantes no Sesc de Santos. Aí minha mãe falou “É o cara do Inocentes, tua banda não é punk rock? Será que não seria legal você fazer esse curso aí?”.

Pô, minha banda era muito ruim, mas nós fomos. Aí as aulas eram uma vez por semana e no final tinha uma Gig com todas as bandas. E ele falou pra gente: “bixo, vocês são muito ruins! Mas vocês são cara de pau, e é essa cara de pau que falta no punk rock. Vou colocar vocês pra tocar, mas vocês ensaiem, vocês tem uma semana pra ficar fod* e tocar três músicas”. Olha só, fomos lá de menção honrosa hahaha! Aí ensaiamos e tocamos, foi uma baita zona. Naquela época a gente já fazia muita macaquice no palco.

Matheus criança ostentando uma camiseta do Sid Vicious. Arquivo pessoal.
Matheus criança ostentando uma camiseta do Sid Vicious. Arquivo pessoal.

Ornella: Imagino a bagunça boa que foi! Essa banda, já era o Bombers?

 

Matheus: Sim, nessa época chamava-se Unabomber, mas descobrimos que tinham várias bandas com esse nome. Aí ficou só Bomber, mas não curtimos muito e colocamos The Bombers, porque tudo que curtíamos na época era “The” alguma coisa: The Beatles, The Who, The Rolling Stones, enfim.

Matheus com Rubinho em 2001.
Matheus com seu amigo Rubinho em 2001. Arquivo pessoal.

Ornella: E quais outras bandas vocês escutavam nessa época? No final dos anos 90, quando a banda começou.

 

Matheus: Na verdade nós começamos a tocar em 1995. Meio que sem querer, acabamos fazendo parte de um cenário musical “meio alternativo” dentro do cenário independente de Santos. Já existia um cenário independente em Santos, de uma geração anterior à nossa, que era o Garage Fuzz, Safari Hamburgers, White Frogs. 

 

 

Nós começamos a tocar e não era a mesma coisa que eles faziam, nós tínhamos outras referências. Apesar de ser um pouco parecido, as referências eram diferentes, a abordagem era diferente e nós éramos bem mais novos, então não tinha aquela abertura dentro de alguns espaços.

Só que em Santos tinham muitas bandas, muitas mesmo. Aí meio que criamos um circuito nosso, tocamos com bandas tipo o Zenicodemus, Crossroads, Imperfeitos. Inclusive, Imperfeitos foi a primeira banda a tocar no Hangar 110, se não me engano com o CPM 22. 

Com o passar do tempo, nós fomos nos aproximando do cenário, tocando em shows com bandas de fora, então nós fizemos bastante shows com o Carbona do Rio de Janeiro, com o CPM 22 lá em Santos, isso na época da fita ainda. Tocamos também com o Blind Pigs, Dead Fish, Dance of Days e o Strike mais pra frente.

Nessa época, lá em Santos – mas acho que no Brasil todo – rolava muito show de banda gringa, o que estava acontecendo lá fora chegou aqui quase no mesmo tempo. Nós vimos o Shelter tocando em Santos logo depois que eles lançaram o Mantra, estavam estourando na MTV com “Here We Go Again” e uma semana depois estavam lá tocando na nossa cidade. Nós mesmos tocamos com o Satanic Surfers, The Casualties, Boom Boom Kid, MxPx…

 

 

Ornella: Caramba, MxPx! Tá aí algo que não escuto falar há muito tempo, ainda vive? E o Boom Boom Kid estava aqui no Brasil recentemente também!

 

Matheus: Ô, vive sim, acho até que lançaram algo esses tempos.

 

Ornella: E o que você ouvia nessa época, mudou muito pra hoje em dia? Ninguém aqui é “velho”, mas sabemos que quando somos bem jovens, somos mais empolgados e comumente queremos imitar aqueles que admiramos. Com o tempo buscamos outras referências, tanto que o punk rock que vocês fazem hoje em dia é bem diferente do começo da banda, foi tomando um caminho próprio. Fala um pouco dessa parte musical pra você, o que você ouvia e o que passou a ouvir.

 

Matheus: Acho que a grande ideia era construir nossa identidade musical, ter o nosso som. Óbvio que nós temos nossas referências, cada um da banda é chegado em uma vertente, mas a ideia sempre foi fazer um som que fosse rock, em especial rock e com a nossa cara.

Realmente, nessa entram várias influências. No livro é uma salada mista, tipo, em 2001 eu não estava ouvindo Dropkick Murphys ou The Bouncing Souls, eu tava ouvindo Strokes, The Hives, The Killers. Fod*-se, eu abracei mesmo, achei um som legal pra caralh*, sempre gostei de absorver o máximo daquilo que escuto. Hoje em dia eu escuto muito Kasabian, curto muito a banda.

 

 

Ornella: Foi mais pro indie, bacana isso.

 

Matheus: Sim, eu adoro essa coisa que é rock, mas é dançante ao mesmo tempo. Eu tô escutando bastante também o disco novo da Rosalía, é um disco muito bom.

Tem uma artista que tô ouvindo também, que ela é bizarra, o nome é Ayesha Erotica, é um batidão quase funk e as letras uma loucura, coisa tipo, sei lá “quero transar fumando crack” hahahahahahah cara, é terrível.

 

 

Ornella: Pesquisei aqui hahaha, saquei qual é já, uma pegada meio tosquera/trash 2000.

 

Matheus: Isso mesmo hahaha eu acabo ouvindo essas porcarias. De rock, tenho escutado o Hellacopters novo, tô apaixonado. Tem o Wildhearts que é uma banda que amo, lá da Inglaterra, baita influência pra mim. Punk mesmo, faz muito tempo que não escuto, aquele “punk, punk” mesmo.

 

Ornella: Mas isso é relativo também, acaba entrando em uma disputa. O que é punk e o que não é punk?

 

Matheus: Sim, mas eu digo mais porque não tô ouvindo os clássicos, né? Não tenho escutado Stiff Little Fingers ou Ramones. Se bem que há uns dias atrás eu estava ouvindo bastante Ramones hahaha! 

 

Ornella: É, Ramones não tem como abandonar nessa vida.

 

Matheus: Total, até pela memória afetiva, sempre bom ouvir. Mas tirando isso, eu tenho escutado The Pretty Reckless, Silversun Pickups e cara, eu descobri Paramore, que é uma banda muito legal. Tenho escutado bastante isso e também uma playlist minha de Rap dos anos 80.

 

 

Artur: Muito maneiro, você que fez a playlist? Ah, aproveitando o tema, recomenda pros nossos leitores algum livro, banda, filme, museu, enfim, recomenda coisas bacanas pra nós conhecermos!

 

Matheus: Sim, eu que fiz a playlist! Bom, de recomendação de livro eu fico com A alma é Imoral do Nilton Bonder. De filme é o “Last Night Soho” (2021) , achei esse filme maravilhoso! 

 

 

Disco, puts…olha, eu tô gostando muito dos trabalhos do Sick Dogs in Trouble, mas é que eu participei do processo de composição também. Eu sei que tenho um carinho especial, mas independente disso vale a pena escutar. 

 

 

Outro disco que recomendo é o “21st Century Love Songs” do Wildhearts, é muito fod*. Recomendo inclusive pelas letras, foi um disco que me mostrou que era possível fazer rock com letra de adulto hahaha sabe? Sem ficar fingindo que eu sou um eterno adolescente.

 

 

Basicamente eu tenho escutado coisas de um extremo ao outro e consigo ver beleza nisso tudo. Então, pra consumir música tem que ser aberto para ouvir de tudo um pouco.

 

Ornella: Sim, concordo. E sobre o Bombers, fiquei pensando aqui que vocês estão há 27 anos com a banda, enfim, quase 30 anos juntos. Isso é algo muito legal, ainda mais que a banda não chegou a encerrar suas atividades durante esse período, o que é difícil. Como é pra você essa caminhada, como foi chegar até aqui?

 

Matheus: Olha, acho que isso aconteceu muito por insistência minha. Na real, eu posso ficar falando um monte de motivos aqui, mas enquanto tinha algo pra ser dito, enquanto tinha uma música ali no violão sendo feita, eu sabia que eu continuaria tocando de alguma forma.

The Bombers.
The Bombers. Fonte: Instagram.

Integrantes mudaram várias vezes, mas eu sempre quis continuar. E eu entendo essas pessoas, né? A vida vai chamando, fulano teve filho, o outro não vai poder mais tocar porque sei lá, tá cuidando da mãe. Enfim, tudo bem, legal, valeu. Quem quiser, segue aí com a gente.

O mais louco de tudo é que muita força pra gente continuar veio da pandemia. Na pandemia estava rolando uma escassez financeira e mesmo assim eu consegui pagar as contas da minha casa, com auxílio de artistas ou vendendo show online. Ali foi onde eu aprendi a me respeitar como artista. 

Eu descobri a importância do trabalho, descobri a importância de ter minha banda independente de qualquer sucesso ou expectativa. Se não fosse pela minha banda, talvez eu tivesse enlouquecido. 

Não só eu, mas os caras da banda também. Então, de certa maneira a pandemia mostrou que nós precisamos dessa banda pra viver mesmo. Louco, né?

 

Ornella: Sim, é muito importante você colocar desse jeito, porque não tem esse discurso maluco de “agradecer a pandemia”, pois sabemos que foi algo horrível. É sobre buscar entender como o ser humano se adapta às situações. Achei legal ter gerado esse senso de importância e seriedade com o seu trabalho. Trouxe essa noção de que o seu trabalho não é qualquer coisa.

 

Matheus: Sim, foi bem isso. Eu olhei pro lado e, puts…eu vendi uma boa parte da minha coleção de vinil, fiz de tudo pra levantar uma grana, o estúdio estava fechado, enfim, bateu aquele desespero. 

Aí eu comecei a fazer grana com a música, com a minha banda, com eu tocando sozinho, produzindo. Nisso eu entendi que precisava me respeitar e valorizar o meu trabalho.

Reverendo Frankenstein
Reverendo Frankenstein. Foto de Renata Machado.

 

Artur: Eu lembro de um show do Bombers que vi na Zona Leste, eram umas 2h da manhã de uma quinta-feira e vocês eram a última banda. Não tinha ninguém assistindo, mas aí logo que começou o show, a galera entrou em peso, lotou o lugar simplesmente do nada, isso em uma quinta-feira! 

 

Matheus: Esse dia foi muito maneiro mesmo! Eu aprendi isso com uma banda que gosto muito, que é o Backyard Babies, uma banda da Suécia. Eles tocaram em Santos em 2001 ou 2002 se não me engano, e era uma terça-feira. 

Bixo, acho que não deu nem 50 pagantes naquele dia, só que os caras subiram no palco pra tocar e tocaram como se estivessem no Rock in Rio, aquilo foi muito fod*. Eu tava com medo de ver uma das minhas bandas favoritas subindo no palco e ficarem put*s por não ter ninguém e acabar fazendo um show merd*. 

E foi totalmente o contrário, eles fizeram um show do caralh* e é isso, independente do lugar, independente da quantidade de pessoas que estiverem lá. Se forem dois pagantes, nós vamos dar a alma e fazer um put* show pra esses dois pagantes e que se fod*. Isso é compromisso.

 

 

Artur: E tem algum show de vocês que é o seu favorito?

 

Matheus: Tem, pior que tem! A gente sempre lembra desse show, foi lá no Vulcano em São Bernardo se não me engano, em 2006. Nós fomos tocar lá e estávamos com o repertório em português. Nisso a gente já estava bem inseguro, tinha uma galera torcendo o nariz por causa desses sons que fizemos em português, enfim, aquele papo sem sentido. 

As bandas de abertura eram um hardcore quase extremo, bem cru! E nós já fazíamos um som cheio de melodias, cheio de graça, ali eu já estava preocupado. Uma ex namorada minha chegou e perguntou: “Vocês têm certeza que querem tocar? Dá pra entrar no carro e sair fora, ninguém vai perceber que vocês vieram”. 

Nisso eu pensei “Pô, é uma opção, né?” haha. Pensando que ainda tinha Blind Pigs, Nitrominds e o U.S. Bombs, dos Estados Unidos. Puts, um show mais incrível que o outro, sendo que os primeiros já foram maior pancadaria, eu só pensava “Nós vamos subir no palco e vamos tomar latada na cara” haha.

Nisso, nós da banda fizemos um acordo de subir no palco e fazer o melhor show da nossa vida. E foi isso, nós subimos e fizemos um put* show, terminamos em êxtase! Eu perdi a cabeça no meio do show, quebrei a guitarra, enfim, foi muito caótico. Depois eu li uma resenha que disse que nós fomos a grande surpresa da noite. 

Pô, ler que fomos uma surpresa quando tem o Blind Pigs, U.S. Bombs, Nitrominds e um monte de outras bandas, cara, foi incrível isso! Ainda mais que cinco minutos antes nós estávamos pensando em ir embora. 

Sempre lembramos desse dia, principalmente quando vamos tocar e ficamos na dúvida se vai ser bom ou não. Hoje em dia é “velho, sangue nos olhos e bora lá, sobe nessa porr* e faz o que tem que fazer”. Mesmo quando entra algum novo integrante, a gente conta essa história haha tipo aqueles anciãos passando a mensagem pra frente.

The Bombers
The Bombers. Fonte: Instagram.

Ornella: Ainda bem que vocês não foram embora haha! Animal isso tudo, que esse momento gerou um sentimento importante pra vocês. Aliás, tanto tempo de estrada deve ter gerado diversas histórias boas. Aproveita e conta pra gente aquela que você contaria no Jô Soares!

 

Matheus: Teve uma vez que nós fomos tocar em Limeira, que nós estávamos achando graça de tudo, enfim, aqueles dias bons, né? Tiramos o dia pra ficar engraçado. Nessa época, o Blink 182 fez aquele clipe que eles estão pelados, enfim, tava rolando essas palhaçadas haha. 

Aí a gente falou “bora tocar pelado!”, eu e o Trivela tiramos as calças e colocamos a guitarra na frente. O pessoal começou a ficar louco e nós, no meio do show, falamos “quem subir aqui no palco e abaixar as calças, vai ganhar uma camiseta!”. 

Nisso o pessoal começou a subir no palco, abaixava a calça, ganhava a camiseta e pulava na galera haha. O pessoal adorou, elogiaram muito o show, falaram que a gente era doido. Aí uma menina veio falar comigo e disse “Olha, eu vim aqui porque eu gosto da banda e eu trouxe a minha irmã. Ela foi obrigada a ver um monte de homem colocando o pa* pra fora e chacoalhando, você acha que isso foi legal?”.

Puts, aí eu falei “Não, não acho. Eu quero pedir desculpa, toma uma camiseta e um cd, foi mal”. Mas ela ficou me cobrando, perguntando se eu achava que isso era suficiente e tal. Pô, sei lá! Era pra ela estar na escola! Aprendendo o corpo humano lá e não aqui nesse show, o que essa criança tá fazendo nesse ambiente? hahaha.

The Bombers com a bunda de fora
The Bombers com a bunda de fora. Fonte: Instagram.

Artur: Puts, que situação hahaha. O pior é que ela meio que tentou extorquir você.

 

Matheus: Tipo isso! Mas olha, tem muita história, história de briga, história legal, outras nem tanto. Aí vou fazer minha propaganda: Leiam meu livro, está tudo lá! hahaha.

 

Artur: E aquele famoso show do lixo? Conta aí vai!

 

Matheus: Meu, esse show do lixo foi sensacional, foi lá em Curitiba. Nós tocamos com o Dance of Days em Curitiba, não lembro o nome do lugar, acho que nem existe mais. Era Bombers, Dance of Days e várias outras bandas, era uma put* festival. 

Aí no meio do show eu falei assim “Cara, eu fiquei muito impressionado que Curitiba é uma cidade muito limpa, você anda pela rua e não vê uma bituca de cigarro, um papel amassado no chão. Eu queria dar os parabéns pra vocês que moram nessa cidade, ela é muito limpa!”. 

Aí todo mundo “êêêê!!”. Nisso eu emendei “Queria lembrar que o Santos foi campeão hoje” – aliás, eu quase me atrasei pra chegar no show porque estava vendo o jogo haha – “E agora, sabe uma coisa que eu não gostei? Aqui, dentro desse bar, vocês são um bando de porcos! Olha tudo que vocês estão jogando de latinha e lixo no chão. Tudo que vocês não fazem lá fora, vocês estão fazendo aqui dentro. Então vamos fazer um favor? Vamos pegar todo lixo que está no chão e tacar aqui no palco agora”. 

Começamos a tocar e, put* que pariu! Foi uma chuva de lixo, de garrafa, de tudo no palco! Aí terminou a música, que era a última do show. E o dono do espaço subiu no palco muito bravo falando pra mim “Aí maluco, você vai pagar essa porr*! Quebrou um monte de coisa aqui no palco!”. 

Nisso eu mandei um “Ah, irmão, vai se fod*r!” e saí do palco, em direção a parte de trás, que não dava pro público ver. O cara veio com tudo, babando de raiva e já querendo me pegar. 

Eu só virei pra ele e disse “Pô, velho! Na frente de todo mundo não!”, o cara ficou confuso e eu disse “Aqui é rock’n’roll bixo, na frente da galera fica chato, no backstage é outra ideia, conversa aqui comigo. O que quebrou? Vamos resolver isso de boas”. 

Ele ficou incrédulo, me abraçou e disse que eu era um retardado haha e eu sou mesmo! Ainda disse que adorou nosso show e nem deu nada. Ele só não pagou a gente, usou o cachê para pagar o prejuízo. 

 

Ornella: hahaha! Bixo, vocês falaram tudo que a galera queria ouvir, pessoal gosta de sair pra bagunça, né?

 

Matheus: Sim, total! Tem vídeo desse rolê, vou mandar.

 

 

Ornella: Manda que colocamos aqui! Então, voltando rapidinho, sobre a composição das letras de vocês, estávamos falando dessa parada de temáticas, rebeldia, amadurecimento.

 

Matheus: Ah, sim. Olha, nós estamos vivendo em uma sociedade extremamente traumatizada. Nós vivemos a pandemia, passamos esses 4 anos de desgoverno, passamos por um monte de coisa. Existe muita coisa a ser conversada e eu acho que uma letra de música é uma conversa, é uma conversa musicada.

Todo mundo sofrendo de crise de ansiedade, crise de depressão, várias histórias de suicídio, cara…

 

Ornella: Sim, muitas pessoas também perderam familiares e amigos nessa pandemia, foi super pesado.

 

Matheus: Tanta coisa rolando e eu entendo quem queira se anestesiar ouvindo uma música com letra ingênua, despretensiosa, sobre “lembrar de tempos atrás quando éramos felizes”. Super legal, bacana, válido. Se funciona pra você, então tá ótimo. 

Mas eu vi nisso uma oportunidade para versar sobre todas essas angústias. Eu penso que eu não sou o único cara com mais de 40 anos que curte esse gênero musical, eu preciso conversar com essas pessoas.

A música pra mim sempre foi minha melhor amiga, quando eu estava com dor de cotovelo, eu tinha umas músicas ali pra ouvir, que me confortaram. Quando eu estava feliz, tinha músicas que me acompanhavam nessa alegria também, eu sempre tive essa relação com as letras.
Como nós voltamos a fazer música em português pra esse disco novo, eu quis estabelecer um diálogo com as pessoas, falar sobre tudo que estamos vivendo, sobre essa epidemia de doença mental absurda. 

Todo mundo conhece alguém que está passando por isso. Como que eu vou perder a oportunidade de falar e trocar experiências sobre isso? A gente acabou indo mais para esse lado, sem querer parecer auto ajuda, é mais compartilhamento de experiências. Compartilhar histórias, situações e tentar trazer às vezes algumas soluções. 

Não sei, acho que é mais fácil de entender quando vocês ouvirem o disco todo haha. Até fizemos música de amor, é sobre o relacionamento de outra pessoa, que eu tomei uma posição que achei que a pessoa deveria ter para as coisas funcionarem. Enfim, tem muita coisa pela frente nesse novo disco!

 

Ornella: Animal, estamos ansiosos para ouvir o disco novo e ver o show, né? Agora manda seu recado final, se quer mandar beijo pra alguém, enfim, o espaço é seu.

 

Matheus: Imagina, gente! Já falei pra caramba hahaha mas pô, eu adorei, obrigada pelo espaço, eu sempre fico muito feliz quando tenho a oportunidade de falar sobre a minha música e o meu trabalho, ainda mais nesse formato de troca de histórias e impressões sobre o que estamos vivendo.

 

Ornella: É muito bom mesmo, bora tomar uma cerveja! E muito obrigada, querido. Foi um prazer te conhecer e bater esse papo contigo.

 

Artur: Sempre muito bom conversar contigo, Matheus! Valeu demais, bixo!

 

Matheus: Valeu, Artur, véio de guerra! Valeu, Ornella, prazer te conhecer! Tamo junto, gente, obrigado!

 

É isso aí, pessoal! Altos papos com o Matheus. Recomendamos fortemente colarem nos shows e acompanhá-los nas redes! Quer que a gente entreviste alguém? Deixe nos comentários!

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